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terça-feira, 18 de novembro de 2014

Novo conto: Drama

Drama

Depois que perdi minha família, a depressão quase se apoderou de mim. A tristeza era minha companheira diária, e não raro eu me surpreendia chorando a falta deles. Mesmo as brigas que tínhamos me faziam falta, e as consultas com neurologistas acabavam sempre com a recomendação de algum remédio que me entorpecia os sentidos, deixando-me sonolento, envolto numa modorra de dar dó.
Uma amiga médica, no entanto, tomada de compaixão e conhecedora do eu antes das tragédias pessoais, inscreveu-me num programa inovador, que pesquisava curas para a depressão. Passei a tomar um medicamento que realmente não me afetava em nada. Nem na depressão!
Com as consultas e um pouco de orientação, voltei a fazer exercícios, a ocupar a minha mente, e então pude sentir os benefícios do novo remédio. Realmente funcionava muito bem... bem até demais! Comecei a desenvolver novas capacidades, as quais mantive em segredo. A droga experimental me deu a habilidade da telecinese, além da projeção emocional.
A princípio, eu conseguia mexer pequenas bolinhas de papel e fazer com que as pessoas à minha volta tivessem sutis variações de humor. Até aí, nada demais, apesar de não ser algo exatamente normal.
Um dia, porém, ao sair atrasado para o trabalho, o carro não quis pegar. Tentei algumas vezes, sem sucesso, até que, num rompante, soltei um berro e bati com as duas mãos no volante: o carro foi imediata e rapidamente arrastado dois metros adiante, quase batendo noutro que estava parado na vaga à frente. Percebi, então, que minhas emoções influenciavam nos meus ditos poderes, e passei a praticá-los em lugares desertos.
Ao ser capaz de levantar carros com facilidade, movendo-os de um lado para o outro, perguntei-me: “será que posso me mover”? A resposta foi, claro, uma experiência que começou com um formigamento que se espalhou como um raio pelo meu corpo, e eu fui capaz de voar! Sim, agora eu realizava meu sonho de criança, conseguia voar sem nenhum aparelho!
Voltei para casa e, ao apontar o carro para a garagem, fui surpreendido com uma arma na minha cabeça. Soltei lentamente as mãos do volante, levantando-as, e olhei na direção do ladrão, que começou a fungar. Ato contínuo, abaixou a arma, chorando, e sentou-se no meio-fio, maldizendo aquela vida e sua sina. A arma, sozinha, levitou de sua mão e se desmontou, para seu espanto. Levantando-se e enxugando suas lágrimas, ele sumiu, se benzendo, para nunca mais aparecer. Deu um pequeno sorriso e entrei tranquilamente na garagem.
À noite, na televisão, anunciaram que construiriam um acelerador de partículas no interior do Nordeste, e o país, que já estava dividido, ficou ainda mais partido. Quase todos os segmentos da sociedade, independentemente de viés ideológico, classe social e grau de instrução, gritaram que o país tinha problemas muito mais sérios a tratar. O governo, no entanto, querendo fazer parte de uma nova iniciativa para o desenvolvimento de uma fonte de energia limpa e duradoura, achou que seria bom investir o que lhe restava de caixa no projeto.
O grande problema foi que não conseguiam trabalhadores para a faraônica obra, visto que a população, em grande parte, era coberta por programas assistenciais do governo; sua única fonte de renda e, provavelmente, de alimentação. O emprego na construção do acelerador lhes daria melhores condições, porém, se aceitassem o trabalho, seriam automaticamente desligados.
Foi então que o governo lançou uma campanha por todo o país, chamando e recrutando trabalhadores de diversas áreas, a fim de que pudesse tocar o projeto adiante. Dadas as proporções gigantescas do projeto, em praticamente todas as áreas havia necessidade de pessoal.
Como não tinha mais nenhuma ligação com minha querida e maravilhosa cidade, decidi tentar a vida naquelas paragens. Já conhecia o Nordeste, seu clima ensolarado e pessoas hospitaleiras, e melhor: ainda tinha parentes lá.
A localização do acelerador era numa cidadezinha a pouco mais de meia hora de carro de onde meus parentes moravam, na capital do estado, e seria ótimo conseguir um lugar para morar lá. Trabalho e praia, tudo que um carioca marinheiro precisa para crescer forte e feliz. E com sol o ano todo!
Seis anos e vários desvios de verba depois, o acelerador estava pronto para o primeiro teste. Coincidentemente, a capital e a cidadezinha quase não tinham mais crime. Um misterioso homem voador assustava os ladrões, fazendo com que eles chorassem como crianças, ou mesmo rissem até molharem as calças. Por fazer aflorar as emoções de uma maneira estupidamente intensa, a imprensa começou a chamá-lo de “Drama”, um nome que pegou.
Drama, claro, era eu. Um símbolo. Não tinha uniforme. Usava roupas e sapatos comuns, mas aparecia de onde menos se esperava. Para manter a identidade secreta, usava uma balaclava preta, e era capaz de dominar grupos de bandidos, fazendo com que se entregassem, aos prantos, à polícia. As cadeias locais começaram a sofrer de superlotação...
Eu trabalhava na administração do projeto, e fui convidado para assistir ao teste. Os cientistas puderam trazer suas famílias.
Duas equipes saíram em carrinhos elétricos, desses de campo de golfe, para verificar se havia alguém, antes que os poderosos ímãs fossem ligados, dando início à aceleração. Uma delas foi para o anel maior, enquanto a outra percorria o menor. Cada vez que passavam por uma seção, as portas estanques eram hermeticamente fechadas.
Tudo pronto, hora de começar. Uma das esposas dos cientistas deu por falta de seu pequeno, e todos começamos a procurá-lo pela ampla sala de controle. O tempo passava, os procedimentos de acionamento eram cumpridos, e a angústia daquela mãe aumentava. Sensibilizado, projetava calma em seus sentimentos, mas o instinto materno era forte demais. Aliás, como deve ser.
Gritos interromperam meus pensamentos: era um dos cientistas operadores, apontando para um dos monitores. Olhamos para ele, e imagem aterrorizou-nos a todos, sem exceção: o pequeno tinha se escondido num dos corredores do anel maior, e agora batia na porta, pedindo para sair.
Para piorar as coisas, ele havia mexido numa das válvulas de resfriamento do condutor secundário, o que causaria uma explosão com consequências que ninguém sabia ao certo quais seriam. Nada para se preocupar, bastava apenas apertar o botão de parada de emergência, esperar as partículas pararem, e ir buscar o garotinho. Seria ótimo, se a parada de emergência não falhasse miseravelmente.
Os berros de socorro da mãe se juntaram aos uivos da sirene de alerta de acionamento, misturando-se ao burburinho das pessoas que não sabiam o que fazer. Aproveitando-me da atenção que estava concentrada no monitor, tirei a camisa social que usava, ficando apenas com uma camiseta branca, e vesti a balaclava. Voei da sala, arrebentando as portas pelo caminho, o mais rápido que podia.
Quando cheguei ao menininho, ele chorava pela mãe, mas me reconheceu, chamando-me de “Dama”. Tudo bem, nem todos conseguem falar “Drama”, principalmente se nem falam direito ainda.
As luzes estroboscópicas vermelhas giravam no ritmo das sirenes, encimadas apenas pelo zumbido intermitente e crescente do acelerador. Tentei pegar o menino para sair dali, mas o campo magnético puxou-me pela fivela do cinto, prendendo-me de barriga ao tubo condutor principal. Não conseguia me mover, muito menos tirar o cinto!
Uma voz no comunicador da parede gritava para que eu saísse dali, pois tudo estava prestes a ir pelos ares. Fiz o garotinho flutuar e o enviei de volta à sala, puxando todas as portas que tinha arrombado para perto da seção onde eu estava. Depois, não me lembro de mais nada.
Acordei num leito de hospital, sem saber direito onde estava. Sabia que já tinha estado naquele lugar, mas não me lembrava onde era. Olhei pela janela, e vi uma parte da minha cidade natal. Cidade natal? Rio de Janeiro? Mas eu estava no Nordeste até bem pouco tempo...
Olhei em volta e vi a minha amiga médica sentada numa poltrona, dormindo. A porta do quarto entreaberta, e um policial de cada lado. As fardas da Polícia Militar do Rio confirmavam minha suspeita.
Chamei minha amiga, que acordou. Sendo seu paciente, dava a ela o privilégio de entrar e sair quando queria. Ela ficou feliz em me ver, mas a interrompi; queria saber como eu tinha ido parar ali. Soube por ela que tinha salvo o garotinho e todos os que se encontravam no raio destrutivo da explosão do acelerador. Fiquei com mais de cinquenta por cento do corpo queimado, e quando viram que eu era marinheiro, enviaram-me de volta para o hospital da Marinha, no Rio de Janeiro. Fui direto para a Ala de Queimados, e lá permaneci em coma por quase um mês.
Quis saber sobre o motivo dos policiais na porta. Ela me disse que havia dois: com a explosão, a identidade secreta de Drama havia sido revelada, e eu seria condenado por fazer justiça com as próprias mãos; e os bandidos, sabendo quem os combatia eficazmente, não hesitariam em me eliminar. Eu podia voar, desmontar armas e fazer criminosos se entregarem à polícia dançando quadrilha de São João, mas não era invulnerável.
Ser condenado por fazer o bem... Só mesmo neste país! Eu nunca tinha encostado a mão num meliante, e fazia com que eles se entregassem às autoridades competentes. Portanto, não era, exatamente, justiça com as próprias mãos. Eu me tornava mais um incompreendido...
Comecei a sentir muita dor, e minha amiga chamou a enfermeira, enquanto aumentava a dose de morfina do meu soro. Dormi.
Acordei sozinho, de noite, e tentei usar meus poderes. Ao fazer o esforço mental, todo o meu corpo respondeu com uma dor pungente, como se várias espadas tentassem me atravessar. Melhor começar com alguma coisa simples... o copo de plástico vazio em cima do criado-mudo! Consegui movê-lo, mas senti muita dor. Vou esperar melhorar. Preciso ao menos tentar me sentar... nada. Dor demais. Durmo novamente.
Acordo com o enfermeiro me dizendo que virá me dar um banho mais tarde, para tirar a pele morta e enrugada. Ele me diz que “vai doer um pouquinho”. Em toda a minha experiência de vida, sempre que alguém da área de Saúde me disse que doeria “um pouquinho”, é porque arrancariam o meu couro, ou coisa parecida. Preparei-me para o pior.
No dia seguinte, ainda com os novos curativos e agradecendo a Deus pela bendita morfina, vejo minha amiga médica novamente. Fico feliz com aquela presença feminina, com seu jeito de menina, e rapidamente me lembro de que ela é casada, e tem duas filhinhas lindas. Não me permito pensar mais nada, só tento projetar mais alegria em sua mente. Consigo, mas sou parado pela dor no corpo inteiro. Essa droga não vai passar?
Ela me cumprimenta, eu lhe dou um polido “bom dia”, me viro para os policiais do lado de fora, e os cumprimento também. Um deles me olha e sorri, desejando-me um bom dia, levando uma imediata reprimenda do outro.
Minha amiga diz que quer me fazer uma pergunta, mas não sabe como. Eu lhe digo que não tenho nada a lhe esconder, e que pode perguntar. Ela, então, me olha nos olhos e me pergunta como foi que desenvolvi poderes, transformando-me em “Drama”. Minha resposta não poderia ser outra: tinha sido o remédio, claro.
Ela contorna a cama. Olha pela janela e volta a me encarar. Solta um longo suspiro, e fala que não sabe como vai me dizer o que precisa me contar. Eu me ajeito na cama, a morfina quase não segura a dor. Ela me diz que o remédio jamais poderia ter me causado isso. Eu lhe pergunto o que poderia ter causado, se não fosse o remédio? E as centenas de bandidos presos? Os resgates miraculosos? E as melhorias na segurança das cidades onde eu atuava? Eu voava e manipulava objetos mentalmente, vai me dizer que não tinha superpoderes?
Ela me conta, então, o que quase me faz parar o coração: faço parte do grupo de controle. Desde que comecei o tratamento, há mais de seis anos, que só tomo placebos!

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Novo conto: Fogos



É, eu me lembro bem quando comecei a conversar comigo mesmo, como faço agora. Foi logo depois de eu ter me tornado amargo e rancoroso. Solitário. Eu tive família, sabia? Claro que sabia! Estou falando comigo mesmo...
O mundo virou um lugar inabitável, é tudo uma merda, e eu peço todos os dias para Deus acabar comigo. Quero rever minha família. Paradoxalmente, procuro desesperadamente sobreviver nesse “admirável mundo novo”.
Eu me lembro de quando os fogos pararam de falar. Os fogos, porra, não se lembra? Não me lembro? Essa coisa de falar comigo mesmo me confunde, às vezes.
Fogos-fátuos sempre falaram. Nunca descobriram uma razão científica para isso. Os que vinham de pântanos eram os puros, mas só uivavam, rugiam ou assoviavam canções. Algumas sem nexo, outras transformadas em sinfonias pelos nossos compositores.
Já os que surgiam dos túmulos ditavam cartas, poemas, ou mesmo davam discursos. Alguns deles até permitiam diálogos, respondendo a perguntas e travando discussões, porém, nunca acaloradas. Todos sabíamos que não era a personalidade do cadáver que ali se encontrava, pois as ideias eram as mais variadas. Até divergiam ao extremo oposto da opinião da pessoa falecida, com vozes totalmente diferentes.
Um fogo-fátuo por vezes assumia uma voz feminina num túmulo masculino; o contrário também se dava. Eram manifestações de entidades inteligentes. Quando se perguntava a eles o que eram, ou quem tinham sido, não respondiam. Nunca nos garantiram a vida após a morte.
Mas os fogos se calaram antes de uma eleição. Uma grande “festa da democracia”, os imbecis diziam. “É o auge da democracia”, outros berravam. Mas eu sabia. Alguma coisa estava para acontecer, e aconteceu mesmo. Eu esperava que as coisas fossem difíceis, mas não pensava que seriam o fim do mundo.
Era eleição. Depois da campanha mais baixa e torpe de todos os tempos, um dos partidos ganhou, quebrando décadas de hegemonia do que governava. Mesmo com as fraudes eleitorais, já conhecidas, não houve jeito: tiveram de entregar o poder aos adversários de tantos anos.
Porém, grupos que apoiavam a situação tinham passado toda a campanha dizendo que, se perdessem, haveria guerra. Eu pensava que seriam greves, pequenas sabotagens aqui e ali, coisa que passaria depois do primeiro ano. O normal de sempre. Mas eu sabia que seria diferente. Eu sentia.
Antes de sair, o “partidão”, como se referiam a ele, orquestrou várias ações que tornariam nossas vidas mais difíceis. Retiraram boa parte das unidades militares das fronteiras, permitindo que drogas e armas entrassem livremente, e abastecessem o crime nas várias favelas das capitais e cidades maiores. Quanto mais lucro do tráfico, mais dinheiro para treinamentos e armas.
Aceitaram dezenas de milhares de imigrantes, legalizando-os automaticamente, e os colocaram junto às favelas. Muitos eram ex-integrantes das forças armadas de seus países de origem, bem treinados e preparados no uso de armas e combate corpo a corpo.
Concederam vistos a quaisquer habitantes de países notoriamente conhecidos por abrigarem grupos terroristas. Muitos fugiram de seus países de origem, procurando uma terra pacífica. Outros vieram ajudar a acabar com o futuro, trazendo seu conhecimento em terrorismo e guerrilha urbana.
E aí, começou: grupos simpatizantes aos perdedores começaram a achacar não somente os notoriamente partidários dos vencedores, mas qualquer um que não os apoiasse. A princípio, eram somente ataques verbais, depois, houve uma escalada da violência, e a polícia começou a intervir.
Os policiais deixaram de conseguir controlar as arruaças quando grupos fortemente armados começaram a tomar parte nelas. Muitas mortes foram registradas dos dois lados, e as forças armadas também foram chamadas, para garantir a lei e a ordem. Foi nesse momento que minha vida começou a ruir.
Não, cara, nada disso! Olhe só: eu estava indo à padaria com meus dois filhos. É, um adolescente, e o outro pequeno. Estava feliz porque começaria a aprender a ler e escrever no ano seguinte.
Ao voltarmos, nos deparamos com um grupo de partidários. “Lutadores da Liberdade”, se chamavam. Perguntaram-nos sobre quem apoiávamos. Disse-lhes que não apoiava ninguém, e que só queria viver minha vida em paz. “Não queremos problemas”, falei.
Eu e meu filho mais velho tentamos lutar com eles quando avançaram em nossa direção, com os olhos injetados de sangue. Conseguimos nocautear uns quatro, mas eram muitos, e acabamos presos. Ali mesmo, na calçada, cortaram os tendões dos braços e pernas do meu filho adolescente, transformando-o num boneco ensanguentado que urrava de dor. Mandaram-no se calar, ou fariam com que silenciasse de vez.
Gritei que faria o que quisessem, mas um dos bandidos que fazia a segurança do grupo cortou-lhe o pescoço com uma katana, fazendo com que se engasgasse em seu próprio sangue. Daí, viraram-se para meu filho mais novo e o pegaram, segurando seus quatro membros, puxando cada um numa direção. A cada estalo dos ossos saindo das articulações, uma rachadura em minh'alma, já despedaçada. Por fim, o bandido pegou sua espada e esquartejou meu pequeno. “Tenha uma boa vida”, me disseram, e foram embora.
Não sei quanto tempo fiquei ali, afogando-me na confusão de sentimentos de ódio, perplexidade, dor, tristeza e desespero. Estranhamente, não verti uma única lágrima, apenas me ajoelhei ao lado dos corpos daqueles que foram minhas maiores riquezas. Nenhum grito, suspiro, nenhum “ai”. Ali fiquei em dúvida da existência de um Deus, e quais seriam seus desígnios.
Pedi a um desses burros-sem-rabo que me ajudasse a levar os cadáveres para casa, e lá os velei. Enterrei meus filhos com uma esposa em choque ao meu lado. Não demorou muito, e a enterrei também. Definhou até a morte, sem entender o porquê de tudo aquilo.
A sequência de eventos foi quase óbvia: as forças armadas, sucateadas, não duraram muito contra os bandidos e terroristas, financiados pelas fortunas acumuladas pela corrupção, bem como outros países simpatizantes. Uma guerra civil se instaurou no país, e todos pensamos que ela acabaria quando os perdedores fossem novamente guindados ao poder.
A chamada “esperança” devolveu o poder que tinha ganho democraticamente. “Esperança”... Sei! Nunca acreditei em políticos santos, nem em salvadores da pátria. Mas entregaram o poder de volta e os perdedores, claro, aceitaram... e este foi seu maior erro.
Os bandidos e terroristas que apoiaram o novo — ou velho? — governo quiseram fazer imposições, mas quem é autoritário só aceita condições até conseguir o que quer. Até aí, o mundo inteiro só olhava, de longe, o que acontecia nestas paragens; entretanto, quando os terroristas detonaram duas bombas sujas em estações do metrô do Rio e São Paulo numa terça-feira, às cinco e meia da tarde, as coisas começaram a mudar.
Em duas semanas, o número de mortos chegou à casa das centenas de milhares, sem falar nos outros tantos contaminados, que também se tornaram óbitos. O mundo decidiu, então, intervir, mas o governo não aceitou países que não professassem a mesma forma de governo. Como era de se esperar, uma das potências não admitiu ficar de fora, e a escalada de violência entre eles resultou numa guerra global. Evitaram, no entanto, usar armas de destruição em massa.
Drogas, armas e até veículos militares continuavam a entrar livremente pelas nossas fronteiras. Os terroristas, perdendo o apoio que tinham, mantiveram sua união com os bandidos, e contaminaram a água do país, dono de vinte por cento das reservas potáveis mundiais. Bombardearam cidades com aviação de caça. Mais algumas dezenas de milhões morreram.
Mantive-me vivo porque fugi para o norte, e comecei a trabalhar numa colônia de pescadores. Sabia navegar, e isso bastava. Tive de fazer de conta que só sabia assinar o nome, a fim de não atrair atenção. Falava errado, também. Mudei meu sotaque.
Bebia água de coco, suco de melancia, ou sangue de peixes marinhos. Comer, só peixe. Vivia só e falava o necessário. A dureza e falta de palavras se encaixava perfeitamente na vida de “pescador sem estudo”.
Quando o mundo virou um lugar estéril, com cidades-estado amuralhadas, eu já estava com pouco mais de setenta anos. Consequência da guerra e do terror. A população mundial caiu para um décimo do que era, beirando os setecentos milhões. Não sei ao certo os números, porque a guerra acabou com toda a infraestrutura.
Não tínhamos mais comunicações de longa distância, internet, e até mesmo canais de televisão eram proibidos, porque a geração de energia era insuficiente para todos. Sim, sim, usávamos a bosta dos animais que criávamos para produzir metano e mover uma pequena termelétrica.
Deixei de ser pescador para ser bosteiro, como denominavam na cidade em que passei a morar. A economia girava praticamente em torno da geração de energia, e o escambo era a moeda. Quanto atraso, e tudo por conta da nossa própria idiotice.
As costas me doíam, mas ser bosteiro me garantia um bom sustento. Num dos dias em que estava lá, trabalhando, um dos adolescentes maltrapilhos da pequena cidade chegou esbaforido. Sentou-se, arfando, e disse que os fogos tinham voltado a falar. Décadas em silêncio, e voltaram a falar. Por que só agora?
Depois de retomar o fôlego, ele me disse que estavam me chamando. “Quem é que tá me chamando”, perguntei-lhe, com medo da resposta, que eu já imaginava: os fogos. Sentei-me. Respirei fundo. Quis saber se tinha certeza, afinal, tinha muitos Paulos na nossa cidade-estado. Ele me respondeu que os fogos chamavam pelo “Paulo bosteiro”. Era eu. Sem dúvida. Eu mesmo.
Fui lá, e várias chamas se faziam presentes nos túmulos. Tinham curtas, porém diferentes durações, produzindo chiados aleatórios. Uma pequena multidão já se formava em torno dos sepulcros. Apurei os ouvidos, mas só consegui discernir os “fsssssss” dos gases escapando. Nada.
Dei de ombros e me virei, quando ouvi a vozinha do meu pequeno me chamar:
— Papai... Papai... Não vá, fique comigo...
Meu garotinho. Uma alma imortal num corpo jovem, depedaçado pela crueldade, há tantas décadas. Traquinas, mas carinhoso. Cheio de vida, ao ponto de deixar eu e minha mulher de cabelos desgrenhados ao fim do dia.
Não. Não é possível. Os fogos são inteligentes, mas nunca se apresentaram como pessoas que tinham vivido antes. É um truque, só pode ser!
— Ôxi! Tu é quem — perguntei, aos berros e irado, com meu sotaque, àquela voz.
— Sou eu, papai. Eduardo. Você tá muito triste. Não pode ficar assim, papai.
— Tu é quem, fiduma égua — insisti, contendo as lágrimas, fazendo-me de firme.
— Papai, você sempre falou que quem trocou minha primeira fralda, quando eu era bebezinho, foi você. E me deu o primeiro banho também.
O peso da amargura me fez dobrar os joelhos lentamente, tocando a terra vermelha com eles. As lágrimas desceram como pequenos rios que tinham finalmente conseguido romper uma barreira de granito.
— Papai, o Marcelo também está aqui.
Meu outro filho. O adolescente. Quase trinta anos atrás. Meu coração. O ar. O ar falta. Pulso acelerado. Hiperventilação. Calma, porra, calma! O sangue. Boneco ensanguentado. Meu coração. Menino despedaçado. Calma, cacete!
— Pai — falou Marcelo. Era ele, sim. Prolongava a palavra, como se estivesse com preguiça.
A esta altura, eu já estava sentado. Arfava. Tentava sem sucesso secar as lágrimas, aquelas que eu não tinha derramado no momento em que me desejaram uma “boa vida”. As que eu não derramei em quase trinta anos.
— Pai... Não foi sua culpa. Tudo bem, pai. Tá tudo bem.
— Meu filho... eu... eu...
O coração. Quer sair pela boca. A arritmia é tão forte, que a sinto batendo nos tímpanos. Calma, porra!
— Pai...
— Que foi, filho — a pergunta saiu sem sotaque falso.
— Mamãe tá aqui também. Ela quer falar com você.
Não. Por favor. Parem com isso. O caixão. O caixão descendo vagarosamente. Tão devagar quanto a vida se esvaía dela, que tinha perdido tudo o que considerava precioso. Eu também tinha perdido. Eu tinha falhado. Eu tinha que ter dado a vida para salvar meus filhos. Tinha!
— Paulo, deixa isso prá lá. Você ficou muito tempo vivendo assim, se escondendo nessa tristeza toda. Vai, meu amor. É hora de você se livrar disso.
— M-mas...
— Deixa, meu amor! Não ouviu o Marcelo falar? Não foi sua culpa!
O coração. As vistas querem escurecer. Dores no fundo e alto da cabeça. Minha pressão deve estar alta. Os tímpanos soando como címbalos em mãos furiosas.
Alguém se vira para mim e me pede para perguntar aos fogos como é a vida noutro lado. Não consigo respirar. Sinto uma pontada no peito.
— Vem, meu amor. Junte-se a nós.
— Vem, pai...
— Vem, meu papaizinho querido!

Uma dor forte no peito. As vistas se escurecem. Quem me viu, disse que um fogo diferente saiu do meu corpo quando, já morto, tombei. Não era azulado como os outros fogos-fátuos, mas amarelado. Não houve palavras. Só liberdade e felicidade.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Entrevista com seu humilde blogueiro!

Nathalia Mendonça, dona do blog Claquete Rosa, divulgou uma entrevista com este seu aspirante a escritor. Muito agradecido que fico a ela!
Para quem quiser ver, eis a página: Em ascensão: Rogério Silva

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Conto: “Há males que vêm para o bem” (um conto diferente do que costumo escrever...)

Venho do verde mais belo,
Do mais dourado amarelo,
Do azul mais cheio de luz,
Cheio de estrelas prateadas
Que se ajoelham deslumbradas,
Fazendo o sinal da Cruz!
Canção do Expedicionário – Guilherme de Almeida

— Fidi, abai... — pá! O estampido seco do tiro interrompe o grito. Sinto um baque na cabeça, o suficiente para me desequilibrar; enquanto caio, os ecos se juntam à reverberação do som do primeiro disparo, como grasnados de corvos do além.
Fico parado, tentando respirar o mínimo possível, mesmo com esse maldito frio. Minha mãe sempre sonhou em conhecer a terra dos nossos antepassados, a bela Itália, e aqui estou eu, passando fome, frio, sede, matando outros, e escapando da morte todos os dias! Mas, desta vez, acho que não vai dar... Sinto a dor e ardência de um ferimento na cabeça, o sangue escorrendo, mas é melhor não me mexer. Não posso deixar que esse puto nazifascista saiba que ainda estou vivo: ele não vai errar o próximo.
Pá..uá..uá... os corvos lúgubres se fazem ouvir novamente, e um impacto no meu ombro direito. Tento não me mexer. Os colegas da companhia gritam, apontando para o alto de uma torre. Tomam posições, fuzilando-a, enquanto dois me arrastam para um lugar seguro. Ouço gritos de “médico”, e de “acabem com esse nazista de mer...” Desmaio.
Acordo numa cama, num quarto. Ao meu lado, uma jovem linda, estrangeira. Lembra um pouco a Rita Hayworth. O Sargento Gama, Subcomandante do Pelotão, está junto. Ele pega o meu braço esquerdo, solta uma pá de palavrões, e diz que está feliz por me ver vivo. Afinal, como ficariam sem um dos melhores intérpretes na Itália?
Eu não era o único do pelotão que falava bem italiano. E naquele momento, não me lembrava por que me chamavam de Fidi. Fidi? Espere aí: meu nome é Paulo! Paulo Moreira Cellotti. Meu pai me ensinou a falar italiano, que aprendeu com meu avô, um “verdadeiro carcamano”, como se referia a si mesmo.
Sim, Fidi! É porque eu vivia dizendo que era filho de dono de posto de gasolina. Filho de dono, Fididono... Fidi. E meu pai ficou sabendo do apelido no mesmo dia em que soube que eu embarcaria para a Europa.
— Que presente do Dia dos Pais você me dá, hein? Eu falei para não ser militar — disse ele, chorando e me abraçando, como se fosse a última vez que me visse. No dia do embarque, não conseguiu ir: sentiu-se mal, chorou, pediu que eu não fosse. Falei com ele que, se me tornasse desertor, seria fuzilado; na guerra, pelo menos teria uma chance de voltar. Ali, não.
— Fidi... — diz a moça, linda. Olhos penetrantes. Decote que me leva à loucura, já há tanto tempo sem ver mulher...
— Paulo — e a conversa continuou em italiano —, meu nome é Paulo.
Ela me pergunta por que estou no país dela. Eu pergunto a ela qual a data, e onde estamos. 18 de setembro de 1944. Massarosa. A cidade acabou de ser libertada pelas tropas americanas e brasileiras. Sento-me para comemorar, mas o mundo todo gira, e eu apago.
Abro os olhos, e há uma penumbra; horas se passaram. Deve ser o anoitecer. Nada de luzes à noite, na guerra. A aviação ataca.
Ela continua lá, e se levanta ao me ver despertar. Diz-me que se chama Maria Castelli... e tem os olhos mais lindos, verdes e expressivos que já vi. Que mulher linda, que olhos, que corpo, que mãos macias, que tocam a minha fronte. Minha cabeça... meu ombro... estão enfaixados, e eu tateio os curativos com a mão esquerda. A ponta dos meus dedos toca a mão de Maria, que me olha e sorri. Passos no corredor fazem com que ela se esquive rapidamente de volta à cadeira, com um olhar sério.
— Tenente Paulo, o Capitão quer ver o senhor — diz o Sargento Gama. O Capitão entra, e me diz que estamos obtendo importantes vitórias, e que a Linha Gótica cairá. Os americanos reconhecem-nos como valorosos combatentes, e os olhos de Maria são lindos. Maria Castelli é a minha paixão, e se os alemães e italianos continuarem a nos combater, eles vão ver que o meu amor por Maria é muito grande. Além disso, a Segunda Companhia partirá para Camaione, onde Maria não está, e eu não poderei mais viver sem ela. É necessário assegurar a ponte para que as tropas possam penetrar e conquistar o coração de Maria Castelli.
— Entendido, Tenente?
— Positivo, Capitão!
O Capitão se retira. Graças a Deus, porque eu não entendi nada do que ele falou. Maria tomou meu pensamento completamente. Eu tento me levantar, e lá vem a maldita tonteira de novo. Não quero desmaiar. Não de novo. Maria já está ao meu lado, me amparando. Bolas pretas explodindo à minha frente. Tudo escurece.
Acordo de manhã, e Maria continua sentada na poltrona do canto do quarto, dormindo. Tento não fazer barulho, e lentamente elevo meu próprio nível, dobrando o travesseiro ao meio. Fico irado comigo mesmo, porque ela acorda e vem me dizer bom dia, com a voz mais linda que já ouvi.
— Vim porque vocês precisavam —, eu digo.
— O quê?
— Você me perguntou por que vim para o seu país. Vim porque precisavam.
— Você é um herói! Por sua causa, descobriram o atirador na torre da igreja.
— Eu? Herói? Fui atingido, e estou aqui preso nessa cama, enquanto meu pelotão está indo para o combate. Preciso me levantar!
— Você não vai a lugar nenhum. Um general esteve aqui enquanto você dormia, e mandou que você ficasse na cama até estar bom para andar de novo. E eu sei que você está muito fraco.
Maria tinha razão. Eu não tinha comido nada. E minha bexiga estava quase estourando! Pedi a ela que me deixasse usar um penico. Ela o puxou debaixo da cama, e mo entregou. Tentei me sentar, e a tonteira insistiu em me fazer deitar. Maria me ajudou, me dizendo para não ter vergonha. Eu nunca tinha tido um momento tão íntimo — e desastrosamente vergonhoso — com uma moça de família assim.
Ela viu quão envergonhado fiquei. Cabisbaixo, não tinha ânimo para admirar aqueles olhos lindos, aquele rosto de obra de arte, aquele corpo escultural. Ah, o sangue latino...
— Não fique assim, vita mia.
“Minha vida”? Olhei para Maria imediatamente, com sinal de espanto. Ela continuava parada, à minha frente, com um sorriso de desmontar qualquer coração blindado. Envolveu-me com o braço direito, enquanto acariciava meu rosto com a suave mão esquerda. Beijamo-nos longamente, até começarmos a ficar ofegantes.
— Você precisa comer. Já volto — ela se desvencilhou do meu abraço com uma facilidade tão grande, que fiquei espantado. Minutos depois, voltou com um prato fumegante de sopa de batatas e um pedaço de pão, desculpando-se por só ter aquilo para comer.
Até sentir o aroma da sopa, eu não estava com fome. No entanto, a reação do meu corpo à sua leve inspiração foi um ronco de fome tão alto, que Maria riu. Comi a sopa com sofreguidão, intercalando-a com o pão, e mal consegui evitar o arroto de satisfação por encher a barriga.
Pergunto a Maria onde estão minhas coisas, e ela me aponta o outro canto do quarto, oposto à poltrona. Levanto-me vagarosamente, agora já melhor, e pego na minha mochila uma caixinha de cartolina. Ração “K”, como era conhecida. Pego a barra de chocolate, abro-a e a divido com ela.
Ao ver o que recebeu, Maria abre um sorriso, e os olhos brilham ainda mais! Há muito não via uma barra de chocolate. Ela a guarda no bolso do avental branco que usava por cima do vestido azul de chita.
— Não vai comer — pergunto-lhe, com um quê de perplexidade. Ela me responde que vai guardá-la para reparti-la com sua família, quando chegarem do mercado.
Se a guerra já não tivesse me testado, eu choraria com aquilo. Mas não. Voltei à caixinha da ração K e peguei mais umas balas, e as entreguei à Maria. Ela pulou no meu pescoço, e ambos caímos na cama.
— Grazie, grazie, vita mia — ela repetia, entre vários beijos curtos. O fato de tê-la sobre mim me deixou excitado. E eu fiquei um tanto sem graça. Ela percebeu ambas as coisas, e se sentou sobre a minha virilha, sorrindo.
Desabotoou minha camisa, e viu os pelos do meu peito, elogiando-me, dizendo que eu era muito másculo. Abaixou-se e me beijou longamente, e começamos a ficar ofegantes e cada vez mais excitados. Não demorou para que estivéssemos nus, mas eu pedi que ela se deitasse ao meu lado, aninhando a cabecinha no meu peito.
— Cosa... — ela me pergunta, sem entender. Eu lhe digo que estamos muito excitados e vamos acabar fazendo algo de que poderemos nos arrepender. Peço a ela que me diga com calma se quer mesmo fazer amor comigo. Ela ri e me diz que eu sou um anjo, o homem da vida dela. Já me conhecia, pois tinha me visto num sonho. Eu a abraço fortemente.
Fizemos amor durante toda a manhã, sem culpa, sem preocupação, sem guerra, sem países, sem inimigos, nem aliados. Só nós. Só nosso amor. Já não era mais paixão, eu não era simplesmente um rapaz apaixonado. Eu estava amando, e era correspondido. E o sangue virginal de Maria no lençol era prova disso: ela havia se guardado para mim!
A única maneira de tomarmos um banho era do lado de fora da casa, num biombo de madeira, que parecia pronto para cair com o primeiro vento. Por sorte, a casa era isolada, pois ficava no alto de um pequeno monte e tinha visada para todas as estradas que passavam pela cidade. Tinha sido escolhida justamente pelo ponto estratégico que era.
Maria me deu um gostoso banho, o primeiro de muitos. Eu nunca tinha feito amor ao ar livre, num dia ensolarado, ainda mais numa bela região da Toscana. Se não fosse a guerra, jamais teria conhecido meu anjo toscano, minha bela italiana, minha Maria Castelli! Ah, realmente, há males que vêm para o bem.
E assim vivi por um mês, até que o ferimento do ombro sarasse por completo. A família de Maria me “adotou”, e, para meu espanto, permitiu que dormíssemos no mesmo quarto. Apesar de muito católicos, a guerra lhes tinha dado uma visão diferente de vida. E sabiam que eu era a chance de Maria sair daquele lugar.
Recebi autorização para voltar ao Brasil e me casar com Maria. Chegamos em novembro, casamo-nos, e eu saí do Exército. Fui trabalhar com meu pai, e assumi o posto de gasolina. A guerra acabou.
Era o meio de dezembro, e Maria começou a sentir muitos enjoos. Aprendia o idioma rapidamente, e se virava muito bem, minha bela donna. Voltou do médico radiante: estava grávida!
Entro em casa, cansado do trabalho, e encontro Maria de camisola sensual, com a mesa posta, um jantar onde tudo era gostoso. Inclusive ela, claro. Apesar de nosso casamento não ser rotina, aquilo me espanta. Pergunto-lhe se está bem, e ela me abraça, dizendo “estou grávida, vita mia”! Se o nosso amor já era gostoso, naquela noite, foi especial. Éramos uma família, e logo teríamos mais um Castelli Cellotti andando pela casa.
No dia seguinte, entro pela porta do escritório do posto, e meu pai já está lá. Ele me olha de cara feia, se levanta e vem me dar o sermão padrão sobre o atraso. Sempre as mesmas frases: “como é que pode”; “você vai ser o dono disso aqui”; “que militar é esse que não dá exemplo”; “a guerra não te ensinou nada”...
— Calaboca, velho! Senta o rabo aí; tu vai ser nonno!
Empalidece. Engasga, tosse, ri, engasga de novo, fica vermelho, se abana, tosse, ri, se senta, torna a se levantar, e me abraça.
— Eu te amo, meu filho! A Maria — exclama — A Maria, ela tá bem — pergunta, com uma cara de preocupação que me faz pensar que ele é o pai e o avô sou eu.
— A Maria tá ótima, pai.
Os meses passam, os enjoos, também. Enxoval de bebê, cursos de batismo, barriga crescendo, mudanças de humor, Maria se achando horrorosa, eu lhe dizendo que está cada vez mais charmosa. Ela quer brigar, e eu me aguento, porque sei que não é ela. “Hormônios”, o médico disse. Fazem isso.
Meio-dia de 11 de agosto de 1945. Sábado. Maria me chama. Sente dor. Diz que está na hora. Telefono para o meu pai, pego a mala. Maria, por incrível que pareça, calma. Uma italiana... calma!
Entro no carro, esqueço de abrir a porta para ela, saio do carro, abro a porta, dou partida, “esqueci a mala”, desligo o carro, subo as escadas, pego a droga da mala, desço, entro no carro, dou partida, corro para o hospital.
Vinte e duas horas de trabalho de parto. Às dez e quatro da manhã, minha filha nasce. Sou pai. Sou casado com a mulher mais adorável que já conheci, a que me deu a vida duas vezes. É domingo.
Maria volta para o quarto. Logo Gina é trazida para mamar pela primeira vez. A mágica da vida, o fruto de um amor que nasceu na guerra.
— Feliz Dia dos Pais, vita mia.
— O quê?
— Dia dos Pais. É hoje. Gina é meu presente para você.
— Maria Castelli Cellotti, eu te amo! Te amo muito!

Venho da minha Maria
Cujo nome principia
Na palma da minha mão,


Canção do Expedicionário – Guilherme de Almeida

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Novo conto: Carruagem

 — Como foi que o senhor conseguiu esses cortes nos braços mesmo — o médico do navio perguntou. Estávamos atracados porto de Itaqui, no Maranhão, desde o dia 12. Era agosto de 1997, dia 14, sexta-feira, e eu ainda tinha dificuldades para acreditar no que tinha acontecido na noite anterior.
— Doc — apelido de qualquer médico da Marinha —, alguém me atingiu com algo que parecia ser uma chibata.
— O quê?
— Um chicote, Doc.
— Chicote, Tenente — perguntou Doc, prolongando as sílabas, estampando a descrença no seu rosto. Eu não queria falar sobre aquilo. Ninguém acreditaria, mesmo.
— Doc, você crê em Deus?
— Por que, Tenente?
— Só lhe perguntei. Acredita?
— Eu fui criado numa família muito católica. Cresci acreditando em Deus; fiz catequese e Primeira Comunhão. Até crisma! Mas... Depois que entrei na faculdade de Medicina, não vi razão nenhuma para acreditar na existência de um ser maravilhoso, sobrenatural. O que salva vidas num hospital é o que eu sei, o que eu estudei, e o que eu tenho à disposição para tratar meus pacientes.
— Muito bom, Doc. Eu já creio que Deus guie sua mão.
— Então, para que eu estudei? Se Deus pode guiar minha mão mesmo...
— Veja, Doc: por que você trata dos doentes?
— Porque sou médico.
— E por que você não manobra com o navio? Por que quem faz isso sou eu?
— Ué, Tenente... porque o senhor foi treinado para isso.
— Exatamente, Doc. Eu acredito que Deus me guia, mas eu tenho que, pelo menos, saber o que fazer, para que Ele possa me inspirar. Se eu tentasse fazer algo para salvar uma vida, num tratamento médico complexo, eu seria totalmente incapaz. Nem Deus poderia me dar a graça de salvar uma vida assim.
— Pois é, Tenente. Eu até acreditava nisso, até que perdi meu primeiro paciente. Morreu nos meus braços, mesmo com tudo o que eu fiz e com todas as orações que fiz. Não faltou fervor e fé da minha parte, e o que o seu Deus fez? Tirou a vida do meu paciente!
Calei-me. Não adiantaria discutir com ele. Mas o que tinha acontecido estava além do que qualquer ciência explicava. Se bem que essa pequena discussão tinha sido engendrada por mim mesmo, para desviar a atenção do chicote que tinha me causado os ferimentos.
Voltei para o meu camarote. Quando entrei, meu amigo de turma se levantou, num sobressalto. Lívido, ele se sentou, colocando a cabeça entre as mãos, sacudindo-a. Ele teve a sorte de não ter sido atingido pelo que tínhamos visto.
— Porra, Paulo, o que a gente vai fazer?
— Como assim, Zé — perguntei — O que houve?
Ele apontou para o canto do camarote. Um cobertor amarfanhado estava jogado lá. Puxei, e quase caí para trás: um fêmur.
— Zé, que porra é essa — perguntei, tentando manter minha voz baixa, senão o Comandante e o Imediato escutariam — E cadê aquela merda daquela vela que aquela mulher deu pra gente?
— Essa merda desse osso é a vela, porra! Cacete, Paulo, como é que vão ficar nossas carreiras quando descobrirem um osso humano velho aqui com a gente? Olha só, tem até terra nele! E parece aquela terra de cemitério!
Peguei minha mochila, joguei o que estava dentro no armário, e a passei para o Zé. Falei para ele fazer um rolo com o cobertor em volta do osso e colocá-lo dentro dela. Virei-me em direção à porta, mas Zé se levantou e me segurou.
— Porra, Paulo. Que que tu vai fazer?
— Falar com o Doc.
— Tá maluco, porra? Quer que todo mundo saiba?
— Zé, a gente não tem certeza de que esse osso é humano. O Doc vai saber identificar.
Cinco minutos depois, o Doc entrava comigo no camarote. Prestou continência ao Zé, que olhou para ele, em prantos. Doc me fitou, com cara de quem não entendia nada.
Fiz um sinal para o Zé para que chegasse para o lado, para eu poder me sentar na cama, ao lado dele. Mostrei a cadeira para o Doc, e ele se sentou. Comecei a falar:
— Doc, precisamos da sua ajuda.
— Afirmativo, Tenente!
— Doc, olhe só: pode me tratar como um paciente. Aliás, eu e o Tenente aqui. Você sabe que eu e ele somos da mesma turma desde o Colégio Naval, né? São catorze anos de amizade, já — Nem sei por que falei aquilo. Não tinha nada a ver com a conversa. Não importa, as palavras morreram nas anteparas do camarote.
— Precisamos do seu conhecimento, mas também do seu sigilo profissional — continuei — Posso contar com você?
— Pode, Tenente, mas do que se trata?
— Lembra-se da conversa que tivemos sobre Deus?
— O que isso tem a ver?
— Tem a ver com o que aconteceu ont...
— Paulo — Zé quase gritou, e segurou nas bandagens do meu braço, me interrompendo. Respondi-lhe com uma careta e um gemido de dor. Ele me soltou imediatamente, lembrando-se de como eu tinha conseguido o ferimento.
— Doc, tente manter uma mente aberta, está bem? Lembra-se de que saímos ontem?
— Sim, senhor. O senhor até me contou a lenda do ônibus fantasma de Itaqui — disse, rindo, porque ninguém do navio tinha visto o ônibus que fazia a ligação Itaqui-São Luís. Ou ele tinha acabado de sair, ou ainda demoraria para chegar... E o espaço entre os ônibus era de duas horas, mas não era regular. Podia variar muito mais.
— Tudo bem, Doc. Lembra-se de que rachamos o táxi para o centro histórico, e que paramos numa sorveteria para experimentarmos...
— Sorvete de nata-goiaba! Sim, Tenente, mas é daí?
— Bom, você se lembra da estória que a dona contou pra gente?
— Da Rainha do Maranhão? Ana... alguma coisa com “J”...
— Ana Jansen — completei. Ele riu. Peguntei-lhe se queria saber como eu tinha arrumado o ferimento. Ele disse que sim. Zé se largou no resto de espaço que tinha na cama. Olhei para ele, e me voltei para o jovem médico.
— Doc, eu sei que sou um dos caras que mais “piranha” aqui.
— Mais o quê, Tenente?
— Mais “piranha” os outros. Que mais faz gozações e piadas com os outros. Mas lhe asseguro, pela felicidade dos meus pais, e lhe dou minha palavra de honra como Oficial, que o que vou lhe contar é verdade.
E comecei a contar a estória do dia anterior. De como saímos da sorveteria e fomos para um baile no centro histórico, onde ouvimos e dançamos reggae até cansar, na Jamaica Brasileira. Claro, partimos para cima das maranhenses, e todos tínhamos encontros para o dia seguinte. O Doc, com mais sorte, passou a noite com a moça que arranjou.
Era a madrugada de quinta para sexta. Saímos do baile e fomos caminhando pela rua do Norte, até alcançarmos a Praça da Saudade. Achamos estranho que todos vinham na direção contrária, mas ninguém no sentido em que caminhávamos.
Zé falou para que dobrássemos à esquerda, entrando na rua Euclides da Cunha, mas eu falei que tínhamos de andar mais um pouco e dobrar à direita, na Avenida do Gavião. Ele insistiu, e eu concordei. E nunca me arrependi tanto.
A rua estava deserta. Nenhuma alma viva além de nós dois. Interessante escolha de palavras: alma viva. Andávamos beirando o cemitério de São Pantaleão, mais conhecido como cemitério do Gavião. Contornávamos a Praça da Saudade, mais conhecida como praça do cemitério, quando vimos os portões do cemitério se abrirem.
Zé me fez parar. Sinal de respeito pelo féretro que vinha. Aquiesci, obedeci, e então me dei conta: uma procissão fúnebre às duas da manhã? Não tive tempo de contestá-lo: um tropel de cavalos foi aumentado, e vimos uma grande carruagem sendo puxada por quatro corcéis. Dois cocheiros montados na boleia a conduziam.
Conforme se aproximaram, pudemos ver uma cena pavorosa: dos quatro cavalos, apenas dois tinham cabeça. O sangue escorria vagarosamente pelos corpos cobertos de cortes abertos.
A carruagem diminuiu, parando em frente a nós. Moscas pousavam e voavam das feridas, e algumas delas tinham larvas. O cheiro horroroso da carne em decomposição fez o arroz de cuxá que tinha comido vir à minha garganta.
Um dos cocheiros tinha sido decapitado. O outro tinha a goela cortada, e sua camisa rota estava vermelha e molhada de sangue. Ambos pareciam escravos.
Zé fez menção de correr, mas o cocheiro degolado pegou o chicote. Deu uma chicotada no Zé e eu, por reflexo, me pus na frente, protegendo-me com meus braços cruzados no alto. Dois golpes laceraram meus membros e eu me encolhi de dor, caindo no chão. Zé ficou paralisado.
A carruagem era negra, desbotada. A iluminação da rua não deixava ver muitos detalhes. Todas as arestas eram cobertas por metal dourado, que estava descascado e enferrujado. Dentro dela, uma estranha luz começou a brilhar.
Zé me ajudou a levantar. Uma voz feminina e envelhecida nos chamou, e nos aproximamos. Um rosto descarnado, com vestes nobres, porém rasgadas, apareceu na janela. Assustamo-nos. O medo nos fez pensar em correr, mas o cocheiro já nos esperava com o chicote. Lembrei-me da dor que senti, os braços ainda ardendo, meu sangue pingando das mãos.
A mulher dentro da cabine fez um sinal para que nos acercássemos. Uma força nos empurrou para ela, malgrado nossa resistência. Resistir era, no mínimo, fútil.
Ela entregou uma vela ao Zé, que a recebeu com enorme relutância. Uma vela negra, acesa. Era a luz dentro da cabina. Aquele estranho vulto sumiu na escuridão do interior da carruagem.
O trote dos cavalos recomeçou. A carruagem fez uma meia volta, e entrou no cemitério do Gavião. Tirei as meias e fiz uns curativos de fortuna. Tivemos um problema sério para arrumar um taxista que quisesse nos trazer de volta ao porto, especialmente por causa das meias ensanguentadas nos braços. Chegamos ao navio quase às quatro da manhã.
Doc me olhava, espantado. Zé tinha se sentado novamente. Perguntei-lhe:
— E aí, Doc? O que acha disso tudo?
Ele não respondeu de imediato. Suspirou. Depois riu e falou:
— Tenente, o senhor está querendo me dar trote, né? Aposto que compraram uma vela preta e agora vão mostrar ela pra mim.
— Na verdade, tentamos jogar a vela fora. Não conseguimos. Não podíamos largá-la, só passá-la de um para o outro e vice-versa — disse, apontando alternadamente entre Zé e mim mesmo —. Tentamos apagá-la, mas não pudemos. Nos faltava ar. O contramestre de serviço achou muito estranho quando entramos no navio daquele jeito, e segurando uma vela preta acesa! Zé se fingiu de bêbado e eu o ajudei a andar. Passei pelo pessoal de serviço e falei “nem queiram saber”, rindo. Peguei um pires na copa e fixei a vela nele e pus no canto do camarote. O resto você sabe.
— E por que me chamaram aqui?
— Lembra-se da lenda que a mulher da sorveteria contou?
Ele disse que sim. Perguntei-lhe se não faltava nenhum detalhe. Ele me respondeu que a mulher tinha falado que a vela, pela manhã, virava um osso.
Olhei para Zé. Ele pegou a mochila, e tirou o cobertor de dentro dela. Desenrolou-o e passou o fêmur ao Doc, que arregalou os olhos de tal forma, que pensei que fossem saltar das órbitas.
— Preciso que me diga se isso é realmente um fêmur humano — disse, com uma calma que me causou estranheza. Doc titubeou, mas confirmou — Preciso também que não comente isso com ninguém.
— E o que pretende fazer?
— Vou ao cemitério. O túmulo dela fica lá. Vou deixar o osso nele.
— Tenente, o senhor está falando sério mesmo?
— Sim. Zé?
— Que é?
— Você vai à igreja matriz. Já que é católico, e eu não, você vai acompanhar a missa, e rezar com toda a sua fé pela alma dela.
— Por quê?
— Pelo que sabemos, Ana foi uma mulher que sofreu muito, mas que estava à frente de seu tempo. Ela não tinha escrúpulos, quando se tratava de dinheiro e poder. Se o osso é dela, gostaria que ela viesse fazer uma visita para pegá-lo de volta? Ou, sei lá: se ela nos deu uma vela... é... osso, por que não quereria algo de volta?
— E você, Doc, bico calado, safo?
— Pode deixar, Tenente!
Saí do cemitério e me encontrei com o Zé em frente à sorveteria. Somente um sorvete de nata-goiaba para nos acalmar.
— Quase hora do rancho. Onde vamos almoçar?
— Tô a fim de mais um arroz de cuxá. Vai?
— Agora. Tá pagando?

— Nem sonhando, camarada. Nem sonhando...

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Novo conto: A Namorada

Conto: A Namorada

Paulo. Meu nome é Paulo. Hoje já passei dos quarenta, quase chegando aos cinquenta. Mas eu vim aqui para falar da minha primeira namorada. Eu falo para todo mundo que minha primeira namorada foi aos quinze; conhecida de um amigo meu. Igreja católica. Não, não sou católico, mas era uma concentração de jovens bons, unidos por um ideal, que era fazer crisma. Não, eu não ia fazer crisma. Já disse: não sou católico.
Eu morei em Madureira. Dez anos. Não, no primeiro lado. O lado que o pessoal chama de “lado do Tem Tudo”. A churrascaria, sabe? Tudo bem: o quartel do Corpo de Bombeiros? Da Sendas? Rua Domingos Lopes? É, esse lado mesmo.
Eu morava perto da igreja de São Geraldo. Tinha catorze anos. Estava fazendo cursinho, porque queria fazer prova para cursar um bom segundo grau, já que não tinha dinheiro para pagar. Hoje eles chamam de Ensino Médio. Até ai, nada a ver com namorada. Vou chegar lá.
Nosso apartamento era térreo, no final do corredor. Minha mãe colocou uma porta de grade, com vidro, e transformou aquela área morta perto da porta num vestíbulo. Só que quando alguém entrava ou saía, aquela porta fazia um barulho terrível, porque as bandeiras com vidros eram frouxas; batiam nos ferros das molduras, e haja ruído!
Uma das coisas esquisitas que tínhamos em casa era um móvel de madeira: um banco, com encosto, mas que o assento era uma tampa para um compartimento. Era como se fosse uma arca na qual se pudesse sentar. Colocávamos livros, papelada, e quaisquer outras coisas que pudéssemos. Menos perecíveis, claro.
Sofarca. Sim, sofarca. Mistura de sofá com arca. É, você já tinha entendido, né? Era como eu chamava aquele móvel estranho. Sabe o que era melhor? Quando alguém se sentava ou subia nele, fazia um ruído ainda mais esquisito. Se eu souber fazer uma boa onomatopeia, seria alguma coisa como prrrooooc. Não era só um estalo de madeira: eram vários, juntos, seguidos, como se fosse um ronco. Prrrooooc! E o melhor: o sofarca fazia aquele prrrooooc sozinho. Não, não! Não era o calor, ou variação de temperatura que fazia a madeira estalar. Só o peso de uma ou mais pessoas juntas fazia isso.
Para fechar o circo das esquisitices, tínhamos na sala um carrinho de bebidas. De madeira, também. Duas rodas enormes, laterais. Dois andares. Cheio de destilados, e copos longos. Por que estou falando do carrinho? Porque de vez em quando os copos começavam a tilintar. Sozinhos. Sem vento, nem nada. Não havia obras próximas, nem gente passando, nem nada. Mas tilintava. Sozinho.
Uma vez, quando eu estava só em casa, a porta de vidro fez seus estrondos normais de abertura e fechamento. Umas três da tarde. Para variar, eu não tinha feito nenhuma das tarefas de casa que minha mãe tinha mandado. Ah, o início da adolescência... Desliguei rapidamente a televisão, e me deitei de bruços, fingindo que estava dormindo. Ouvi passos até o quarto onde eu estava. Uma presença física. A voz da minha irmã falando “coitado... coitado”. Os passos e a presença se afastando.
Tomei aquilo como ofensa, claro. Pulei dentro do quarto da minha irmã gritando, para dar-lhe um susto. Ninguém. Corria a casa toda. Nada. Corri de novo, olhando em cada lugar onde ela pudesse ter se escondido. Adivinhe: estava só. A única pessoa — viva, claro — era eu.
Voltei ao quarto, liguei a televisão. Prrrooooc! Levantei-me e fui olhar. Ninguém. Voltei. Prrrooooc! Olhei de novo. A casa toda. Nada, a não ser a cozinha — que não tinha iluminação por luz solar —, toda escura. Quando passei por ela, me arrepiei dos pés à cabeça.
Nem me lembro o que estava vendo na tevê. Não existia televisão por assinatura ainda; devia ser a sessão da tarde. Algo que passasse o tempo, e que me impedisse de lembrar das tarefas de casa que eu tanto detestava. Prrrooooc! Os copos tilintando, cada vez mais alto e rápido. Um vulto passou no corredor. Gritei do quarto mesmo:
— Para de mexer nessa porra aí!
Parou. Que bom. Já estava ficando de saco cheio de andar a casa toda. Posso voltar a ver o meu filme tranquilam...
— Vem cá... — uma voz feminina falou. É isso mesmo: uma voz feminina me chamou.
Levantei-me e fui para a cozinha, o caminho mais curto para a saída. Nem tentei pegar minha chave; uma jovem estava parada bem no meio. Eu conseguia ver a geladeira e parte da porta de saída por ela. Um pouco mais baixa que eu. Loura, bonita, formosa. Com roupas dos anos 60.
— Q... Quem...
— Mariana. Por que você está aqui? Cadê minha casa?
— Eu moro aqui. Aqui é a minha casa.
— Mas aqui era a minha casa! Cadê minha família?
Eu não sabia o que dizer a ela. Lembrei-me da minha mãe me dizendo que tinham demolido uma casa velha para construir o prédio. Só faltava ser a casa dela.
Ela começou a chorar. A princípio, baixinho, mas numa angústia crescente, e acabou soluçando com o rosto entre as mãos. Fui abraçá-la, mas meus braços a atravessaram. Ela viu. Entrou em desespero, perguntando como meus braços poderiam tê-la atravessado, e em que havia se tornado. Que loucura, não? Pois é.
Eu falei para ela que devia estar numa outra fase da vida. Ela, claro, quis saber que fase era essa. Eu disse a ela que devia ficar feliz, porque a vida continuava. Ela começou a se acalmar. Devia ter a mesma idade que eu. Lindos olhos azuis. Sumiu.
Fiquei ali na cozinha, naquela penumbra, tentando entender tudo o que tinha acontecido. Achava que eu nunca mais a veria, sei lá. Mas que ela era linda, ah, isso era! Parecia um anjo, com aqueles cabelos louros e encaracolados... E aqueles olhos? Pareciam duas bolas de gude azuis! Olhe, foi há tanto tempo; que tipo de comparação um garoto de catorze anos poderia fazer?
Não contei à minha mãe quando ela chegou. Muito menos à minha irmã. Pensariam que sou doido. De qualquer maneira, eu pensava que não a veria mais.
Um mês se passou. Nada de estrondos na porta de entrada. Nem de copos tilintando. Sem prrrooooc.
À noite, depois de estudar a matéria do cursinho e ver um pouco de tevê, fui dormir. Sonhei com Mariana. Sim, o nome dela era Mariana. Ela me disse. Como se diz por aí, sonhei a noite toda. Ela se despediu de mim com um beijo, e aquele foi o meu primeiro. É, loucura, eu sei: meu primeiro beijo foi num sonho, com uma garota fantasma. Hilário!
Quando acordei de manhã, eu estava excitado. Sim, bastante excitado. Entrei embaixo duma ducha gelada para me acalmar, mas confesso: mal podia esperar pela noite seguinte, quando poderia encontrar Mariana de novo.
No cursinho, as aulas passaram mais devagar que eu conseguia aturar. Tinha uma menina em quem eu estava de olho no cursinho; ela era de outra turma. A gente sempre se encontrava na hora do recreio. Recreio, não, intervalo. Adolescentes não têm recreio, tem intervalo.
Naquele intervalo, só saí da sala para beber uma água. Nem fui encontrar com mocinha que eu gostava. Só pensava na menina dos meus sonhos. Literalmente, Mariana era isso.
Nem sempre eu sonhava com Mariana. Mas quando sonhava, ah... Beijos, abraços, carinhos... Longas conversas, passeios de mãos dadas... E, claro, dois adolescentes com os hormônios em fúria, querendo descobrir mais sobre o que era o amor.
Na década de 80, as meninas se davam mais ao respeito do que se vê hoje em dia. Não tinha esse negócio de “ficar”, nem essas competições de quem pega mais quem. Bem, até tinha, mas eram os rapazes quem faziam isso. Agora, imagine na década de 60. Mesmo com toda a liberação feminina, havia garotas que tentavam se preservar, mas que, ainda assim, queriam experimentar.
Mariana era quem sempre me impedia de ir adiante, quando estávamos num, por assim dizer, esfrega mais quente. Pode-se dizer que ela me inspirou vários sonhos, digamos, molhados. Eu era louco por ela, e sabia que sentia o mesmo por mim. E eu queria mais, queria tê-la para mim, sonhava em construir uma vida ao lado dela. Casar, ter filhos, e... me dava conta de que isso era impossível. Como eu me casaria e constituiria família com um fantasma?
Muita gente diz que o amor é eterno. O meu provavelmente seria, de uma forma tão literal que me assustava. Eu estava apaixonado por alguém que, na prática, não existia, e que não seria capaz de me dar o que eu queria: um futuro.
Prrrooooc! Três e pouco da tarde, se me lembro bem. Copos tilintando. Mariana no meio da cozinha, a mesma roupa de sempre, linda como nunca. Seus olhos brilhavam. Meu coração, como sempre, acelerou ao ver aquela que o possuía.
— Mariana? O que houve? Pensei que ia ver você mais tarde, nos sonhos. Sabe que aqui não posso te tocar e nem te abraçar.
— Eu vim falar contigo, meu amor.
— Amor? Eu? Você tá querendo dizer que me ama?
— Sim. Eu amo você — ela declarou, abaixando a cabeça, envergonhada.
— Mariana...
— Oi?
— Também te amo!
— Que bom, meu amor! Eu... eu acho que já chegou a hora da gente se amar.
— Mas Mariana, a gente já se ama...
— Bobo. Eu quero dizer que se você tentar me fazer sua, eu não vou te impedir
Para um garoto de catorze, quase quinze anos ouvir aquilo, bom... Imagine como eu fiquei. Quase fui me deitar àquela hora, só para poder finalmente possuí-la. Eu queria muito saber o que significava fazer amor. O que era poder tocar uma garota intimamente, senti-la pronta para me receber... possuí-la e a ela me entregar. Toda a loucura e paixão de um amor adolescente, sem limites.
Eu não estava com sono, mas fui para cama. Fechei os olhos, me concentrando nas palavras e imagens de Mariana. Não demorou muito, e entrei num estado de torpor, nem dormindo, nem acordado.
Ela apareceu para mim. Estávamos num campo bonito, com flores e árvores que eu nunca tinha visto. Um lago azul, e montanhas ao fundo, encimadas por neve. Estava claro. Mariana se despiu, e pude ver como era maravilhosamente gostosa. Entrou no lago, soltando um “ui”, ao entrar em contato com a água. Seus mamilos imediatamente se enrijeceram.
Não pensei duas vezes: tirei minhas roupas e mergulhei no lago, emergindo junto a ela. Nós nos beijamos, e começamos a nos amar. Nunca tinha sentido aquilo. Mariana gemia e me instigava a ir mais rápido, e me chamava de nomes que eu jamais pensaria que uma garota tímida diria. Comecei a chamá-la de tudo o que me vinha na cabeça, e ambos explodimos num orgasmo louco.
Saímos do lago, ainda nus, e nos deitamos à beira dele. Mariana se aninhou em mim, pousando a cabecinha no meu peito. Não tínhamos culpa, apenas o amor que sentíamos um pelo outro. Acordei.
Sentia-me diferente. Tinha cruzado a fronteira entre ser um adolescente e saber o que é ser um homem. É, hoje eu sei que não é só isso. Escute o resto da estória.
Acordei no meio da noite. Eu estava com fome. Minha família tinha viajado, e eu tinha ficado, porque teria prova no cursinho para tentar uma bolsa.
Eu ainda estava ofegante, mas me sentindo ótimo! Não tinha muita coisa na geladeira, só um pão de forma e queijo. Leite também. Peguei uma faca para cortar o queijo, e fazer um sanduíche. Do jeito que eu estava com fome, pão com queijo e um copo de leite seriam um banquete para um rei... até que ouvi o sofarca fazer aquele estalo de novo. E os copos tilintarem.
Mariana apareceu atrás de mim, causando-me um sobressalto. Quase me cortei com a faca!
— Meu amor, o que houve?
— Paulo, você me deixou sozinha lá, depois que a gente fez amor...
— Oh, meu bem... eu acordei...
— Eu senti sua falta e vim aqui. Eu quero você do meu lado... para sempre!
— Mas Mariana... Nós estamos em mundos diferentes... Você sabe que eu quero ter uma família um dia.
Mariana pareceu não gostar nada. Ela disse:
— Você... me... usou?
— O que é isso, Mariana? Você sabe que sou louco por você!
— Então, vamos viver nosso amor eternamente! Vem!
— Mariana, eu nem completei quinze anos! Ainda tenho muito que viver. Não quero morrer agora!
— Seu safado! Você me enganou, só para me comer! Você vai se arrepender!
E aquela linda menina loura e de olhos azuis se tornou repentinamente mais alta que eu. Suas roupas deram lugar a escamas escuras, e aquele lindo rostinho se tornou um horroroso réptil, mistura de gente e lagarto.
Garras negras seguraram o meu pescoço, arranhando e me sufocando. Uma risada gutural, que soava mais como um grupo de grunhidos, me gelou o coração. Calafrios subiam e desciam loucamente pela coluna. O que quer que fosse aquilo, me levantou do chão, até eu quase bater com a cabeça no teto.
— Seu puto! Ficou de amorzinho, agora, vai ficar preso para sempre!
Ainda me segurando pelo pescoço, me baixou próximo à pia. Mandou que eu pegasse a faca. Falei que não. Mas aquele monstro fez alguma coisa comigo, e peguei a faca.
— Agora, apunhale seu coração!
— Não — gritei, mas encostei a faca no meu peito, lutando com todas as minhas forças contra isso. Comecei a sentir a dor da ponta penetrando minha carne.
— Meu Deus, perdão pelos meus erros! Por favor, me receba!
O lagarto monstruoso soltou um grito, e me jogou em cima do fogão. É. Fiquei com essa cicatriz aqui, no braço esquerdo. Ele sumiu numa nuvem de fumaça, soltando todos os palavrões que eu conhecia, e outros que nunca tinha ouvido antes.
Sentei-me no chão, sentindo o pescoço arder com os arranhões. Meu corpo todo doía, e minha camisa tinha uma pequena poça de sangue. Levantei-me com alguma dificuldade, joguei o leite e o resto do sanduíche fora, e me sentei para ver televisão. Não conseguiria dormir.

Mais alguns meses, e passei para o Colégio Naval. Conheci minha primeira namorada — viva — e a vida seguiu em frente.